segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Em defesa da descriminalização do aborto

A pesquisadora Débora Diniz defende a descriminalização em audiência no STF

O texto da professora Kris Correa, da PUC Campinas, é sobre o vídeo da dra. Débora Diniz no STF. Segue o texto da professora Kris: 


Convido você a assistir os 15 minutos da fala da pesquisadora Débora Diniz. Vale cada minuto para uma reflexão necessária sobre o assunto. Para um posicionamento baseado em evidências, porque ela apresenta uma das principais pesquisas sobre o impacto do aborto clandestino em nosso país. Veja a metodologia adotada, métodos de pesquisa e técnicas de coleta de dados. Impecável.
A pergunta se você é a favor ou contra o aborto não tem sentido. A Débora explica bem isso.
"Sou contra o aborto, mas também sou contra a criminalização da mulher que faz aborto"
Eu não gosto do aborto. Sou uma das que não passaram por esse trauma.
A pergunta: "Você fez um aborto?", como a Débora diz, é clara.
É o provocado, não é o "espontâneo"; esse é o que a gente "passa".
A mulher fala: "Passei por um aborto", neste caso.
Quem me conhece sabe que passei por um aborto espontâneo, 3 meses depois de uma outra perda por conta de uma gravidez ectópica (fora do útero, e portanto, inviável), que provocou a perda de uma das minhas trompas.
Passei por um trabalho de parto de um feto que já estava sem vida na minha casa, acidentalmente, e não foi fácil.
Sou uma previlegiada, não passei por um trauma de um aborto provocado. Mas imagino o sofrimento dessas mulheres. Imagino o desespero.
Precisamos discutir esse tema!
É uma questão de saúde pública, é a vida das mulheres.
Você pode ser contra o aborto, e dizer que nunca faria e não fazer um aborto na sua vida, por várias questões, religiosas, espirituais, assim como eu.
Mas não ignore o fato de 1 em cada 5 mulheres já terem passado por isso. Não ignore o fato de que são as mais pobres e vulneráveis que morrem por omissão do Estado. Que é um tema que envolve racismo. Que é uma pauta das mulheres.
Resgatei uma fala da Dra Melania Amorim que publiquei aqui em 2015 que representa o que penso sobre isso:
"Sobre o aborto, eu não estou querendo saber a opinião pessoal de ninguém, não me interessa. Podem pular o tópico (...) Questões filosóficas, religiosas, de foro íntimo, eu respeito e para mim a opinião da MULHER é soberana.
Como cientista, pesquisadora, médica GO, epidemiologista e feminista, o que me interessa é discutir a legalização, porque está provado que:
1. A legalização diminui o número de mortes maternas;
2. A legalização diminui o número de abortamentos provocados.
Claro que não é só isso. Trata-se de PREVENIR os abortos inseguros, o que requer múltiplas ações: uma política de contracepção eficiente, o acolhimento e a opção do aborto seguro quando essa é uma decisão irrevogável da mulher e, finalmente, os programas de atenção pós-aborto, que comprovadamente reduzem novos abortos provocados.
Acho que essa é uma pauta comum. Imagino que todo mundo queira evitar que as mulheres morram e que ocorram mais abortos provocados.
Fora que nesta nossa sociedade hipócrita, todo mundo sabe que na prática o direito ao aborto seguro está assegurado no Brasil para quem tem dinheiro e acesso à informação. Morrem, se arriscam, sofrem sequelas as mulheres pobres (mais ainda as pardas e negras) que no auge do desespero e da falta de acolhimento procuram soluções perigosas.
Não se trata de ser "contra" ou "a favor" do aborto, mas de acordar para o problema de saúde pública que ele representa.
Não é à toa que "complicações do aborto" representam a quarta causa de morte materna no Brasil. Não se pode fugir desse problema e por à frente dele sua eventual objeção de consciência. Queremos conselhos e sociedades engajadas em discutir a descriminalização/legalização do aborto ou pelo menos como é possível viabilizar um programa de redução de danos. Como sabemos, o Conselho Federal de Medicina (CFM) tem um posicionamento avançado sobre o tema. Não se baseia no "eu acho que".
Quanto à decisão de abortar, íntima, pessoal e intransferível, questão de consciência, deve ser considerada como direito inalienável da mulher, senhora de seu corpo e de suas escolhas. Como clamam nossas irmãs em castelhano: "Nosotras parimos. Nosotras decidimos".

O vídeo na integra, convida a pensar, refletir e decidir-se diante de um assunto tão polêmico, mas profundamente vital e urgente. 

Clique aqui e assista o pronunciamento da Dra. Debora Diniz

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